Família e amigos não me ajudam a emagrecer
Como lidar quando seu ambiente familiar e social dificulta seu emagrecimento.
Olá, pessoal! Como muitos devem saber, eu sou especialista em Medicina de Família.
O Médico de Família nada mais é do que o especialista nas condições mais comuns da população. Então, todos os dias, o médico de família lida com hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo, gestações, doenças infecciosas, pediatria, e por aí vai.
Além disso, é um profissional profundamente conhecedor da dinâmica familiar. Ao passo que um especialista focal se preocupa somente com você, o médico de família também quer entender a sua dinâmica social e familiar. Ele quer saber quais ambientes você frequenta, quais batalhas você enfrenta, quais batalhas o seu cônjuge enfrenta, como estão seus filhos, e por aí vai.
A especialidade se casa muito bem com o tema de hoje porque muitas vezes a falha em emagrecer vem de um contexto familiar ou social que não colaboram. A dinâmica familiar influencia bastante na probabilidade de você alcançar sua meta de peso.
Imitatio affectuum
No meu cotidiano, tenho costume de lidar com centenas de famílias, centenas de problemas, dos mais diversos possíveis. E, se tem algo que posso falar, é que os problemas de um são adjuvantes dos problemas do outro: se sua mãe é ansiosa, provavelmente você será mais ansioso também; se seu pai é estressado, provavelmente você também será mais estressado; se as pessoas da sua casa comem compulsivamente, a chance é que você também coma compulsivamente. Espinosa chamava isso de “imitação dos afetos” (imitatio affectuum), afirmando que tendemos a sentir aquilo que percebemos nos outros.
Mas doutor Gabriel, você enxerga algum padrão que nos ajude a entender como essas relações comunitárias acontecem na prática?
Ótima pergunta! Pra começar eu gostaria de dividir as relações entre três grupos: relações sinérgicas; relações neutras e relações antagônicas.
Relações sinérgicas
Primeiro, precisamos entender o que é sinergia.
Sinergia é quando 1 + 1 é maior que 2!
Como assim, doutor? 1 + 1 não era pra ser EXATAMENTE 2?
Nem sempre! Quer ver? Imagine três músicos:
- Um cantor, que cobra R$100,00 por sua apresentação solo
- Um violonista, que cobra R$100,00 por sua apresentação solo
- Um baterista, que cobra R$100,00 por sua apresentação solo
Quanto eles são capazes de fazer se trabalharem separadamente? R$300,00!
Agora imagine que eles formem uma banda, atraindo muito mais a atenção das pessoas...

Com esse trabalho em equipe, eles conseguem facilmente cobrar R$3000,00 pela apresentação! Cada um está lucrando 10 vezes mais só porque se juntaram!
Isso é sinergia! E ela também pode existir quando o assunto é emagrecimento.
Imagine um casal de obesos: João e Maria...

Se Maria resolver emagrecer sozinha, por vezes ela pode se desmotivar, por vezes ela pode se manter menos vigilante... O mesmo é válido para João... Digamos que, nessa situação, após 5 meses, cada um perdeu 2 quilos, totalizando 4 quilos perdidos se formos somar.
Se João e Maria decidem emagrecer juntos, fazem caminhadas juntos, compartilham dieta, puxam a orelha um do outro quando alguém foge da dieta… O processo fica mais leve, eles se ajudam, e a chance de sucesso aumenta...
Agora, em 5 meses, cada um é capaz de perder 10 quilos, totalizando 20 quilos perdidos. Um resultado 5 vezes mais relevante do que se somarmos o de cada um isoladamente!
Isso explica o porquê muitas vezes é mais fácil um casal de obesos emagrecer do que uma pessoa obesa que se relaciona com alguém magro.
Relações neutras
São aquelas em que a pessoa não atrapalha, mas também não ajuda. Ela segue a vida dela de forma passiva às suas decisões. Não se importa com o que você está se alimentando, seja uma rotina saudável ou não. Um exemplo disso são a maioria dos colegas de trabalho: eles podem até observar seus hábitos alimentares, mas, considerando que aquilo não é da conta deles, não interferem. Não ajudam, nem atrapalham.

Relações antagônicas
As relações antagônicas são as mais perigosas. É aquela relação, por exemplo, em que você fala pro seu marido que você está de dieta e ele traz um bolo pra casa só pra implicar. É aquela relação com seus amigos que fazem chacota quando você diz que não vai beber. É aquela pessoa sabotadora que o dr. Eduardo falou em um dos episódios. Além de não ajudar, ela te atrapalha.
Mas nem sempre o antagonismo é intencional ou provocativo como os exemplos acima.
Isso pode acontecer, por exemplo, quando o casal é composto por uma pessoa que engorda só de olhar pra comida, e outra pessoa que continua com a aparência de magro apesar de comer feito um esfomeado. Os hábitos de quem não engorda por questões genéticas podem fazer a outra pessoa engordar cada vez mais por conta do ambiente.

Doutor, sabendo que essas relações existem, como poderíamos otimizá-las para tornar nosso processo de emagrecimento mais fácil?
Como cada relação é diferente, precisamos também tratá-las de formas diferentes. Siga o raciocínio comigo...
Otimizando relações
Relações sinérgicas
Esse tipo de relação é excelente para o emagrecimento. Otimizá-la significa mantê-la existindo pelo maior tempo possível. Isso significa auxiliar a outra pessoa e mostrar que você não desistiu do projeto. Isso a motiva a te motivar também, gerando um ciclo virtuoso.
Então, se seu parceiro está desanimado de caminhar, motive-o a caminhar com você, mesmo que você também esteja cansada. Se seu parceiro falar de dar uma trégua na dieta e pedir uma pizza, ajude-o a pensar se realmente faz sentido no momento. É claro que não queremos viver sem aproveitar a vida, mas é importante termos raciocínio crítico frente às situações.
Relações neutras
Essas tudo bem se continuarem sendo neutras mas, se houver espaço, tente transformar essas relações em sinérgicas. Ver se alguém do seu contexto aceita a se desafiar com você, ou te ajudar a alcançar seus objetivos.
Aqui eu posso dar um exemplo na minha própria casa.
Minha mulher frequentemente oscila entre o sinérgico e o neutro. Tem hora que estamos em projetos juntos, malhamos juntos, fazemos dieta juntos; mas muitas vezes, somos só neutros, e seguimos o fluxo de uma vida muito atarefada.
Porém, eu converso com ela: “Amor, evite trazer doces pra casa” ou então “Amor, vi que tem uma barra de chocolate ali. Você poderia escondê-la de mim?”.
Na maioria das vezes, as relações neutras podem se tornar sinérgicas muito facilmente. Basta pedir.
Relações antagônicas
Essas são as mais desafiadoras… Algumas vezes, um diálogo mais sério funciona; outras depende de terapia; outras, só com o afastamento. Um exemplo extremo seria você fazer parte de um grupo em que as pessoas são viciadas em entorpecentes. Você só conseguirá se libertar da dependência química ao se afastar daquelas pessoas.
Tudo bem, às vezes é bem difícil fazer a pessoa mudar de comportamento. E, nesses casos, precisamos de outras estratégias.
Excelente, doutor! E você tem alguma estratégia que nosso público poderia utilizar para lidar com essas relações antagônicas?
Tenho sim! Antes de abordar as estratégias, acredito que seria interessante falar que podemos ter o antagonismo direto, em que a pessoa interfere diretamente na sua dieta (exemplo: parceiro ironiza sua dieta) ou um antagonismo indireto, em que a pessoa promove uma situação tão pesada pro seu emocional que você acaba descontando na comida (exemplo: colegas de trabalho te estressando).
Dentro de cada um deles, podemos ainda subdividir a relação como necessitando baixa energia para modificação ou alta energia para modificação. Ou seja, alguém pode te atrapalhar, mas ser fácil sair disso com um simples diálogo; mas outros podem te atrapalhar e ser muito difícil sair disso.
Algumas situações, obviamente, são muito mais pesadas que outras. Então, algumas delas vão exigir atitudes mais enérgicas.
Vamos a algumas situações e o que pode ser feito em cada uma delas:
Desvendando relações antagônicas
Existem milhares de relações antagônicas possíveis. Por esse motivo, darei alguns exemplos (um de cada tipo), para que você consiga entender melhor qual tipo mais te afeta. Para cada uma das situações citadas, darei sugestões do que pode ser feito. Porém, como cada caso é um caso, as sugestões não se aplicam a todos.
Antagonismo direto
Baixa energia para modificação
Sua família sempre traz coisas gostosas pra casa, pra te agradar, ou te chama pra comer porcaria. Porém, uma vez que você pedisse ajuda, aceitariam sem maiores problemas.
Nessas situações, cabe bem o diálogo. Aqui, muitas vezes as pessoas só querem te agradar ou que você curta o momento com elas. Elas te amam, querem ver seu bem, só estão se expressando de uma forma diferente da que você precisa para ser uma pessoa mais saudável.
Isso aqui acontece, por exemplo, quando em um grupo de amigos alguém fica sempre enchendo seu copo de cerveja sem você pedir. Acontece também quando sua mãe faz um bolo delicioso e quentinho pra você, como forma de carinho, como manifestação de um ato de serviço. Eles pensam estar agradando, mas muitas vezes estão te empurrando para fora da dieta.
Aqui, não tem muito segredo. Você realmente precisa falar abertamente com eles. Garanto que a conversa será pacífica e tranquila.
Alta energia para modificação
Quando você diz que está de dieta, seu marido faz piadinha, não te escuta quando você fala que isso te machuca e ainda intensifica a provocação, comprando comida “de pirraça”.
Todas as situações que exigem alta energia para modificação são bem complicadas. Aqui, claro, sempre vale tentar o diálogo. Mas, quando uma das partes não te escuta, fica muito difícil.
Nessa fase, geralmente o relacionamento já não está tão bom. Ou até está, mas algumas características do seu parceiro são muito difíceis de lidar.
Caso a pessoa aceite diálogo, ou até terapia voltada a isso, as coisas podem melhorar bastante. Porém, quando nada funciona, uma decisão dolorosa geralmente precisa ser tomada.
Antagonismo indireto
Baixa energia para modificação
Seu filho sempre chega tarde em casa sem avisar, você fica ansiosa, mas nunca expressou claramente como isso te afeta.
Este é um exemplo real. Uma paciente minha havia problemas com o fato de o filho estar sempre saindo à noite e chegando tarde em casa, sem avisar aonde ia. Ela ficava com insônia, preocupada com ele, com medo de ele estar se envolvendo com coisas erradas.
Conversando com ela, ela me disse que nunca havia dialogado diretamente com ele, e que a relação de ambos era muito boa. Sugeri diálogo. Pedi retorno para um mês e ela me disse que parou pra conversar com ele um dia e ele disse que não fazia ideia de que ela se sentia assim. Se resolveram e ela sanou o problema da insônia.
Alta energia para modificação
Seu patrão te estressa, te sobrecarrega, você se sente oprimida e não pode confrontar por medo de perder o emprego.
Essa é uma situação que muitos passam. Quem nunca teve um chefe ruim? Ou um cargo em que se sentia sobrecarregada? E pior: quem nunca se viu dependente desse cargo?
Conversar com o patrão muitas vezes não adianta, pois a chance de ele "fazer birra" e "te marcar" é alta.
Aqui, quando o diálogo não é viável, precisamos nos preparar para abandonar o barco. Precisamos ter pelo menos um "bote" para não nos afogarmos no oceano. E isso significa que você precisa planejar uma alternativa: ter um plano B. Assim, quando for viável, você poderá se ver livre dessas amarras.
Isso pode envolver várias coisas, como se planejar financeiramente, adquirir novas habilidades e aplicar para novas vagas.
Conclusão
Se eu pudesse resumir os principais pontos do que eu falei em alguns tópicos, seriam:
- Se uma relação te ajuda, reforce
- Se uma relação é neutra, melhore
- Se uma relação é ruim, tente diálogo
- Se o diálogo não funciona, prepare-se pra mudança
Gostou do conteúdo?
Siga no Instagram para mais dicas de saúde e bem-estar

